15 de julho de 2010

OMEPRAZOL


Eu mesmo me encontrei como um rival de mim mesmo.

Você é tão absorta em si mesma.
Talvez esteja confusa..

Cada canção é uma volta para trás.
Cada momento chega um pouco tarde demais.

14 de julho de 2010

DISCORDO


Tem hora pra trabalhar.
Tem hora pra rir.
Tem hora pra conversar.
Tem hora pra distrair.

Tem hora pra ouvir.
Tem hora pra amar.
Tem hora pra encontrar.
Tem hora pra chorar.

Tem hora pra concentrar.
Tem hora pra planejar.
Tem hora pra comprar.
Tem hora pra aquietar.

Tem hora pra falar.
Tem hora pra sorrir.
Tem hora pra tentar.
Tem hora pra desistir.

Tem hora pra escrever.
Tem hora pra estudar.
Tem hora pra embebedar.
Tem hora pra cuidar.

[Dever é saber o que fazer agora pra depois fazer que não se deve.]

13 de julho de 2010

REAL TRUTH


“Quando a tarde cai, quando nada mais é capaz de resolver. Quando não se vê, quando se quer esquecer o que o Roger Waters disse em 73..”

* Odeio as coisas fora do meu controle: principalmente o que sinto.

* Quanto mais amadureço, mais me espanto com a minha imaturidade.

* Às vezes preciso dizer sim, não ou nada.

* Como conseguimos conviver com tanto egoísmo e sermos tão dependentes ao mesmo tempo?

* Somos preparados para viver sem a sombra de um deus?

“Dont try so hard: it’s only fools, they make these rules. Don’t try so hard..”

* O altruísmo nunca é prioridade para o egoísmo.

* Competência, inteligência, melhor, pior.... Quando é mérito? Quando é .... sorte?

* Crises existenciais, depressão, desarranjos... metade das pessoas que nasceram por acidente são preparadas para o acaso de existir?

* A malha complexa de aprendizados que temos não se transforma rapidamente: é preciso se submeter a um tedioso processo de convencimento próprio para conseguir abdicar dos nossos pequenos instintos.

* Quem nunca tentou mudar os hábitos rapidamente e voltou a ser pior do que era?

“Tô te explicando pra te confundir, tô te confundindo pra esclarecer, tô iluminado pra poder cegar e tô ficando cego pra poder guiar..”

* Estive afogado no que tenho de pior. Foi ruim, mas necessário.

* Quem nunca olhou para os lados e sentiu vontade de fazer nada? Quem nunca quis simplesmente desaparecer?

* Mentir é covardia. Omitir é manter a sanidade dos despreparados para a verdade.

* No fim, todo mundo sofre, todo mundo ajuda, todo mundo ama e todo mundo... mente.

* Quem disse que a morte não se transforma em vida? Daquelas de olhar para o sol e, de repente, sentir uma completude vazia?

“Aquela hora, aquele mês, aquela temperatura...”

* Copa do Mundo, sempre o maior evento da história. Sob todos os aspectos.

* Casa do Pão de Queijo, Ramov, Rei do Mate e etc: Se faltou poupa de suco no liquidificador, NUNCA completem com água, por favor. Isso me deixa puto e o suco aguado.

* Chorei vendo a Seleção Brasileira de 82 jogar (de novo).

* Nike a Adidas: parabéns pelos trajes desta copa. (E camisa de futebol é sem patrocínio, mesmo.)

* Cadê o seu Brasil agora? Cadê o seu patriotismo? Cadê as bandeiras no quintal?

* A safra do rock nacional desta segunda metade de década está maravilhosa. Garimpem, vale a pena.

* Google e Apple chutam muitos traseiros. (E brigam entre si, claro!)

* Sou um cliente NET muito satisfeito. Chupa, Telefônica! Chupa, Atento!

* Jenson Button, piloto de Fórmula 1, campeão do mundo, sereno, sempre com um sorriso no rosto, simpático, atencioso com imprensa e com os fãs, bem humorado, equilibrado, modesto, leal, boa pinta, tem uma relação verdadeiramente sólida com Jessica Michibata. Bon Vivant, sabe como viver a vida ainda jovem.

Taí um cara para quem torço sob todos os aspectos, sem esse carma idiota de nacionalidade.

Se torce para quem merece conseguir coisas boas na vida, e esse cara é um deles:

18 de maio de 2010

NAMASTÊ



Há muito tempo venho pensando neste post sem me perder. Crio um outro blog? Digo coisas ali e aqui? Escrevo aqui mesmo.

Deletei uns textos ruins, deixei os mais ou menos. Ainda não aprendi as novas regras gramaticais. E não será hoje.

- Mas as pessoas na sala de jantar estão ocupadas em nascer e morrer.

Um dia, um amigo disse que queria se dedicar à música. Éramos adolescentes. Seu avô era contra a idéia. Sabe aquele preconceito idiota que a gente tem no subconsciente sobre qualquer coisa que a sociedade abomina e, de repente, ecoa um "Xiiiii..." silencioso na mente? Pois é. Imagino os avôs quando ainda nem eram avôs: "Tal cara quer ser artista? Xiii..."

Liguei isso ao fato de há algumas décadas músicos e artistas eram taxados como gente sem muito objetivo na vida. Não que isso seja demérito, mas até hoje ouço que "virar artista" não era considerado seguro.

A partir da década de 70, o meio artístico começou a ser levado a mais sério (financeiramente falando), principalmente na música. Gente começou a ganhar dinheiro com isso.

No começo da década de 80 veio a MTV, que foi o berço da cultura pop. Naquela época, não havia muita história pra contar. Se havia, ainda estava sendo contada! Hoje, com algum estudo, dá pra traçar alguns paralelos. Fato é que o showbizz contrariou todo mundo nos 80's com esse lance de "Pai, posso ser mais rico que você com minha banda". Inimaginável, pois poucas haviam conseguido até então.

A impressão que dá é que estou culpando a MTV de ter transformado arte em indústria rentável. Bom, tudo o que existiu de mercantilista antes foram os Beatles, que inventaram os clipes, as turnès mundiais, os trajes e a contracultura, mas, ops, eles não existiam mais. John Lennon estava morto. Tudo se afogou em champagne, ácido e caviar na Apple Records. Os festivais de Woodstock, Monterrey e tudo mais não derrubaram Ronald Reagan e a Guerra do Vietnã. A Europa se dividia entre o capitalismo pós-guerra e a cortina de ferro. Os EUA se afundavam na crise do petróleo e a América do Sul vivia a instabilidade política e economica das ditaduras. Fato é: os anos 80 e a MTV mudaram esse conceito de que artistas não davam certo: as bandas começaram a fazer turnès mundiais, vender milhões de discos e isso rendeu muito dinheiro, ou seja: era a arte finalmente entrando no rol das coisas indispensáveis para qualquer sistema capitalista que se preze.

Já hoje, com a internet, a indústria fonográfica se afoga no Brasil porque ninguém soube se adaptar direito. E os Yankees? Aliás, negócio e inovação são com os caras, seja na música ou em qualquer coisa. Eles tem a Apple Store, nós temos o Trama Virtual (sic). A gente só lucra com terceirização, política, petróleo, igreja e exportação agrícola. Eles lucram com tecnologia, inovação e vendendo cultura própria. Percebem a diferença?

Depois da morte do CD e das grandes "bandas" criadas pela mídia nos 80's, as produtoras agora querem amenizar o prejuízo com preço de ingresso.

(Gancho: vocês se lembram o monte coisa horrível que recebeu o rótulo de 'banda' nos 80's? E concordam que as bandas 'sobreviventes' só foram aprender a tocar de verdade nos 90's?)

O lado bom é que tem espaço pra todo mundo mostrar seu som. O bolo de grana que era centralizado no mainstream agora se reparte com a cena independente. Felizmente, vejo muita gente imparcial, curiosa, que ouve de boa música, analisa e aprecia bandas novas sem deixar as antigas de lado.

Alguém duvida que a megalomania na música acabou? A indústria fonográfica se dividiu, perdeu força. As grandes bandas acabarão. Estamos voltando ao começo, onde existia uma cena, mas não existia showbizz ou mainstream. Era todo mundo ali, na "brodagem", vendo o show um do outro, tocando e criando juntos...

Hoje, cedo ou tarde, quem faz música de qualidade aparece. No entanto, voltou a ser tão difícil quanto era. No fim das contas, o importante é que a arte, aos poucos, vai assumindo seu lugar novamente sendo um instrumento incondicional de expressão humana (sem precisar encher os cofres de gravadoras e produtoras).

Contrariando tudo isso, o que vende muito, ainda, é o 'produto' música. Tem muita gente rica com isso e não é só aqui. Lá, vendem Lady Gaga pra quem assiste Oprah.

E me pergunto: na década de 60, aqui no Brasil, as pessoas compravam Mutantes e hoje, em 2010, compram Victor & Léo. Ambos são artistas populares e reconhecídos, mas, o povo compra porque realmente gosta ou isso é imposto como um produto obrigatório? Ou os dois?

Aqui, vendem todo ano coisa nova 'pra dançar, se apaixonar e ser feliz'! Não é arte verdadeira, é verdade, mas satisfaz o cara que aguarda ansiosamente o último capítulo da novela, assiste BBB e escuta Victor & Léo.

(Não tô querendo desmerecer os caras. Tem coisa pior).

- Bye, bye, Brazil.

Odeio essa agitação de Copa do Mundo. Será que sou obrigado a torcer pelo meu país? Oh, quanto senso de união temos, não? De 32 seleções ou 20 pilotos, preciso torcer para o Brasil porque minha vida é uma merda e desisti de torcer para mim mesmo? E se o time conseguir um bom resultado, sem necessariamente vencer? Quem vou esculachar dessa vez?

Pra quê todo esse senso de união, de um por todos? Porra, estamos entre os melhores do mundo! Mas, e se perder? Vai ser a meia do Roberto Carlos, é o Barrichello que é devagar, é o Dunga cuzão...

O brasileiro supervaloriza um campeão tornando-o um deus intantâneo, humilha seus atletas de ponta porque não foi o melhor de todos e tem memória curta. Quanta moral, não?

Quem nunca já ouviu um:

- "Ele sempre chega em segundo. Que lixo!"

- "Olha o eterno vice, aí!"

Cara, odeio isso profundamente. As pessoas não sabem acordar no dia seguinte e, independente do vencedor, pensar: "Nossa, que grande corrida!" ou "Que grande jogo!".

Lá estão os melhores, mas vou deixar de gostar porque o meu time não ganhou? Tenho que ficar triste porque uma emissora e um bando de marqueteiros apitam que a perda gera um luto coletivo? Eles vão ficar tristes se o Brasil perder porque terão prejuízo: a marca não vai mais veícular, o frisson vai passar e o povo não vai ficar nessa anestesia de que 'somos os melhores do mundo, vamos às compras!'.

Mesmo se Felipe Massa ganhar o campeonato e a seleção for campeã, nós realmente seremos os melhores do mundo? Porra, sua vida vai mudar? Meu amigo, na semana seguinte, você estará na igreja querendo a ajuda de Deus e nem vai lembrar do hexacampeonato!

É por essas e outras que, a cada novo campeonato, me irrito cada vez mais com esse falso frisson que "O Brasil é favorito, assistam!".

Foda-se, saca? Vamos apreciar o esporte! E vocês? Estão preocupados em vencer na vida? Em servir de exemplo? E se a gente pensar no inverso: o Brasil torce por você? Te ajuda?

Porra, brasileiro é fodido. Qualquer resultado esportivo não muda a vida de ninguém. Antes de qualquer coisa, torça para você mesmo. Já demonstrar preocupação política é, no mínimo, mais inteligente.

Parabéns a quem incentivou a campanha Ficha Limpa, que resultou na aprovação da Lei que proibe candidaturas de políticos que já tenham cometido crime ou que tenha algum processo em andamento. Não é muito, mas é sinal de que a molecada pode se mobilizar e usar a internet para tal. Achei ridículo o #ForaSarney pelo Twitter, mas a campanha pelo projeto Ficha Limpa foi além. O pessoal se organizou direitinho. Parabéns ao Avaaz.org. Funcionou.

- Everybody Lies.

A adolescencia é um tédio. A molecada não tem dinheiro, não conhece os lugares, não sabe lidar com um monte de coisa e ainda corre risco de se traumatizar logo cedo com qualquer relacionamento afetivo.

Para a molecada de algumas décadas atrás, o pós guerra foi ainda mais traumático. Depois, os anos de ditadura e a farsa do milagre economico deixou muita gente na pindaíba. Para um país de 90 milhões de pessoas sem muitos recursos, era difícil de fazer qualquer coisa.

Normalmente, depois de algum trauma, não queremos outras pessoas passem pela mesma situação, muito menos nossos dependentes, mas depois da instauração de regime político-democrático, em 84, e do plano real, em 94, quem era criança ou adolescente cresceu num ambiente econômico-social mais favorável, e, é claro, regidos sob o desejo subconsciente dos pais que queriam dar para os filhos tudo o que não tiveram: roupa lavada, comida no prato, ensino particular, convênio, roupas, estabilidade, opções de entretenimento, cultura pop disseminada, presentes de natal, páscoa, aniversário, dia das crianças ... tudo na mão, fácil.

Mudou a idade, mudaram os brinquedos. Hoje, a molecada que cresceu quer grana, casa, carro, roupas e os brinquedos que todo adulto quer. Óbvio que devemos dar espaço para família, filhos e todo o social, mas incomoda ver as pessoas sendo escravas do dinheiro, do trabalho e da rotina para conseguir o que querem. É como matar a fome sem apreciar o sabor da comida.

O trabalho em si deve ser uma experiência recompensadora, acima de tudo. Basicamente, é aquilo que você faz, constrói todo dia, seu conhecimento sobre uma profissão.

Acho que muitas famílias hoje em dia acabam 'amputando' seus filhos mentalmente, no sentido de valores, mesmo. Desde criança, em época de natal, páscoa, dia das crianças ou aniversário, ficávamos ansiosos para receber presentes, mas nunca soubemos ao certo porque estávamos recebendo aquilo, num mérito meio distorcido que só deixava a gente mais ansioso. Hoje sabemos que os pais, no fundo, só querem tornar nossa vida mais fácil, mas, eles nos preparam para situações de crise?

No Brasil, as pessoas estudam sem estudar, trabalham sem trabalhar, compram sem pagar e são impacientes para esperar. Quem já não foi pra faculdade só pra pegar presença? Quantos dias você já foi pro trabalho e não conseguiu produzir nada? Quantas coisas você já comprou no cartão e ainda vai pagar? Quantos relacionamentos já terminaram em poucos meses porque você 'enjoou' da mesma pessoa? Quanto valem as suas decisões? Quantas vezes você começou na academia e parou porque não virou uma Olivia Wilde em 3 meses?

Cara, já vi gente ser admitida e depois de 1 ou 2 anos querer ser gerente! Somos ansiosos para fazer acontecer, para provar que somos bons, que as coisas dão certo, que o carro finalmente vai ser meu, que sou independente, que serei promovido, que terei aquela roupa, aquele sapato, que vou perder peso rapidamente, mas, não somos preparados como adultos para quando as coisas dão errado! Crescemos esperando um presente a cada três meses, e agora não admitimos que as decisões sobre a nossa vida esteja na mão dos outros. Não levamos a sério nossas decisões. Quantos projetos pessoais você já largou pela metade? Quantos namoros você já terminou, voltou, terminou, voltou e terminou? Nos transformamos em seres amputados.

Porquê o twitter bombou? Porra, as pessoas são ansiosas, e toda hora tem alguém falando alguma coisa nova lá, por mais idiota que seja. As pessoas são incapazes de lidar com o tédio e encarar de frente o que realmente precisam fazer: sobra se esconder por trás dessas redes sociais. Aliás, o sentido colaborativo das redes sociais hoje é secundário, tipo, pegar um assunto, explorar diferentes pontos de vista e executar. As pessoas querem é se divertir como ... adultescentes!

Todo dia vejo um monte deles espalhados por aí, morando com os pais, cheios de egocentrismo, ansiosos, doentes, sem saber construir relações verdadeiramente sólidas... E por outro lado a indústria, com muita rapidez, tentando preencher esse vazio com novas bandas, novas séries, novos campeonatos, novas modas que vão e vem....

Claro, faço parte de tudo isso.

E esse conceito ridículo de sustentabilidade que falam por aí?

As empresas vendem isso associando suas marcas à certificados ambientes, mas, e as pessoas? São sustentáveis? Não tô falando de tomar banho em cinco minutos, mas a meninada hoje consegue lavar a própria roupa? Fazer a própria comida? Lavar a própria louça e organizar o próprio quarto? A intenção pode até existir, mas crescemos amputados, sem saber lidar com isso. É uma regra, e como toda regra...

E os gays? Esses que me desculpem, mas tem muita gente mudando de sexualidade por ansiedade, por moda. Deve ser muito frustrante assumir essa mudança procurando uma vida melhor e ver que as velhas perguntas continuam sem resposta. Não sou gay e não tenho preconceito, ao contrário do que algumas pessoas pensam. Felizes os que fazem isso por convicção.

Aliás, o que é preconceito quando a igreja católica abomina homossexuais abertamente? Creio que seja muito mais grave e preocupante. Alô você, nobre católico defensor dos direitos universais do homem, o que acha disso?

- Será que eu vou virar bolor?

A vida continua. Não é uma música. Não é um episódio.

Viver é olhar pra o céu, ouvir os próprios passos no quintal. É o silêncio. É o céu nublado, cinza. É o que precisamos, fazemos e construímos. É passar as coisas pro papel, e do papel pra vida. E logo já não existiremos. Não tem fantasia. Ninguém conspira contra ou a favor.

Viver não é videogame. O buraco é mais embaixo. A diferença está nos detalhes. Não é tão simples, nem tão complexo, mas é difícil estar sempre certo.

Devo acreditar em Deus? Ter um amigo imaginário não é má idéia. Não estar sozinho me conforta. Deus é não estar sozinho e, no final, ninguém quer estar.

22 de fevereiro de 2010

LOVE RIDDEN

O rádio relógio anuncia o início de um dia de reflexo do sol nas lâminas da linha do trem. O despertador soa desagradável como uma velha coruja de cordas roucas cantando ao pé do ouvido, anunciando mais um dia de morte.

O sapato sujo esfarela a lama seca do tapete. O mormaço invade a manhã e faz o dia amanhecer num laranja meio acinzentado. A fumaça negra do diesel invade o ar e faz arder os olhos e a pele. Tudo começa igual, idêntico, cego. Tudo começa sem ter terminado. O estômago revira de nojo, ódio, indisposição. “Mais um dia”. O ácido ascende pelo esôfago, queimando, desacelerando os passos: “Não interessa. Esteja lá. Esteja lá. No horário.”

O andar acelera, os poros respingam incerteza, obrigação, cansaço. Um refresco: um suco gelado, que de suco já não tem nada: foi misturado à pedras enormes de gelo e agora é só um líquido ralo, sem gosto (e quase sem cor), caro e não fiscalizado pela vigilância sanitária. E rende. O gelo transforma poucas frutas em muitos litros. E o vendedor transforma poucos litros em muitos centavos.

Aguardo o trem na estação, atrás da linha amarela, paralelo a outros trabalhadores e miseráveis que portam celulares e relógios com ponteiros que avançam em doses homeopáticas. O trem chega, as portas se abrem e começa o espetáculo de pequenos suicídios diários: forçam a porta, esbarram, seguram, se submetem a humilhações num dia que nem começou. Já travam luta para conseguir centímetros de chão para pisar, dentro de vagões fechados a vácuo sob o sol matinal.

Assim, caio dentro. Inevitavelmente embaixo de um ar condicionado que mistura frio congelante com um cheiro forte e desagradável vindo dos rios da cidade. Vou de estômago gelado, garganta fria, cabeça quente e espírito encharcado de uma força de vontade quase submissa e escrava: não envolve amor, paixão ou entrega. Muito menos lealdade.

Desembarco já olhando atento o ponto da segunda condução: “Será que o ônibus já passou?”. O trem vem lento, lotado, com escalas quase infinitas e desnecessárias para quem já está atrasado e cansado.

Chego entorpecido em melancolia. Amassado. Apertado.

Saio apressado e desembarco num centro sujo de outra cidade de arrecadação generosa e desvios de verba excessivos. Desço, não digo nada, nem uma palavra, nem lá, nem aqui, nem agora. Fiona fala por mim. No fone, nas caixas. “Love Ridden” no volume máximo.

Passo por túneis sujos, pixados, com esgoto fresco escorrendo pelos cantos, baforando ainda quente no meu rosto, ferindo o olfato como um tapa na cara moral, comprometendo qualquer higiene preventiva que tenha feito antes de sair de casa.

Nesses túneis dormem mendingos junto aos seus próprios excrementos, apoiando a cabeça em encanamentos precários, junto a pequenos córregos que correm a céu aberto. É preciso ter cuidado com a urina pingando do teto.

Subo as escadas, implorando por um metro cubico de ar fresco, por alguma árvore para encostar, talvez. Espero no ponto, sem linha amarela ou maiores restrições dessa vez.

Atrás, uma estação da guarda metropolitana estranha, quase abandonada. Ao lado, um afluente do rio Tietê onde outro dia jogaram na minha frente um filhote de cachorro numa sacola de supermercado com a maior naturalidade. Logo à frente, um viaduto. Em baixo, dormitórios para moradores de rua feitos de cimento, e ainda: sobre o mesmo afluente fétido e entre duas avenidas movimentadas.

Do outro lado, uma praça, de bancos quebrados e árvores quase imperceptíveis em meio ao concreto. Na pista, caminhões cargueiros que esfolam o asfalto já judiado, com pressa, portando motoristas movidos a rebite e barbitúricos rumo a Santos. Lá na frente, um posto onde fui comprar um pão outro dia e, na boca do caixa, ouvi: “Será que este pão não está estragado? É melhor nem vender!”. A moça que abriu a boca era novinha e falou na inocência, claro. Já o caixa não estava lá muito preocupado com o estômago dos clientes.

30, 60, 90, 120 dias. Idas e vindas. "E a qualidade de vida?". Agora tudo o que tenho dentro de mim é uma carga energética negativa, cansada, explosiva acima de tudo, cheia de ódio, repugnância, indignação. Andei ultimamente por lugares pouco cheirosos. A situação no geral, diga-se, é pouco cheirosa.

Não precisava ser assim. Meu único suspiro de nobreza, se é que existe, é honrar meus pais, meus amigos e as pessoas que amo. De resto, já não resta quase nada.

ANIMAIS

E então tentamos explicar o inexplicável: essa força quase selvagem que nos move por aí. E a gente nem sabe de onde vem. Tudo para, basicamente, demarcarmos o nosso território, construírmos nossas armas, saírmos por aí: hostis, egoístas, em busca de abrigo, subsistência, boa companhia, querendo partilhar idéias para conquistar aliados. E ainda: gritamos como aborígenes quando as coisas vão mal, e, às vezes, os gritos vem de dentro, se espalham em meio às músicas e se funde ao silêncio do quarto.

"There's someone in my head, but it's not me": Constantemente ouvimos vozes proclamando competição, o cada um por si, o agora, a posse, a negação do fim, um ponto de vista limitado sobre viver plenamente. Tudo isso nos invade como uma doença incurável: uma contrariedade constante que incomoda como uma abelha insistente que pousa em nossas consciências nativas e originais.

Sim, ainda há esperança: Já provamos que podemos conviver em sociedade, mesmo sendo animais com instintos primários exarcebados. Podemos construir coisas que beneficiem à todos, ainda que seja através de escambos e trocas desreguladas.

Você acha que ser comparado a um animal é um insulto? Então olhe para baixo: mãos de macaco, pêlos, crânio, ossos, tudo biologicamente evoluído e projetado para ser um animal que você acha que não é. Você não percebe, claro, porque tem escovas, barbeadores, roupas e artefatos que negam sua própria natureza.

Olhe em volta e veja: outros macacos, caminhando, se comunicando. Percebe como isso é deprimente e maravilhoso ao mesmo tempo? Não estranhe que ética, bem comum, meio-ambiente, futuro e amor sejam conceitos complexos demais hoje em dia, grandes demais para serem exercitados.

Nós, macacos, estamos só aprendendo a lidar com isso, ou dando alguns passos para trás como em um período de transição: descobrindo lentamente o nosso verdadeiro lugar no mundo, para quê viemos e para onde vamos!

Ainda é difícil pra muita gente aceitar que somos simples animais, sem 'uma missão' ou uma tarefa divina que nos foi delegada subitamente por um ser superior. Somos audaciosos e ambiciosos demais. Queremos sintonizar nossa pobre natureza espelhando uma superioridade humana que não existe! Ainda é mais fácil entender a existência se colocando como um animal teimoso, que tem muitas e muitas gerações pela frente para entender porque essas coisas nos faz entrar em colapso.

A inteligência ainda é uma ferramenta distorcida, imatura e mal utilizada. Os sentimentos, então, nem se fala. Provavelmente ainda se baseiam em puro instinto, apesar das derivações emotivas que ainda estamos desenvolvendo. 

Alguns macacos já nos levaram ao limite e outros continuam nos levando, mas a grande maioria desaprende fácil, se vende fácil, é manipulável e se acomoda. Não há nada de errado nisso. Os outros animais também são assim, nada complexos, totalmente previsíveis: se defendem ferozmente de ameaças, se protegem, atacam quando julgam necessário. Hoje descobrimos novas e complexas maneiras de fazer isso (dotadas de poder financeiro ou coletivo) para diminuir as chances de dar errado, mesmo sabendo que alguns venenos funcionam, outros não. E ainda, na maioria das vezes, respondemos aos avisos do próprio corpo: fome, sede, calor, frio. A capacidade de prever problemas além dos nossos sentidos ainda é pouco desenvolvida.

De qualquer forma, estamos indo até longe demais para um bando de macacos que tem só alguns milhares de anos de evolução.  Percebi que, para entender algumas coisas, não vale a pena se munir de inteligência. Uma dose de 'Animal Planet' pode ser uma saída para muitas questões que nos afogam atualmente.

E assim caminha este animalzinho que vos escreve, tentando projetos que não vão muito além do que escrevi. Alguns, inclusive, não fazem o menor sentido. Mas precisam ser feitos por um só motivo: tornar minha sobrevivência mais fácil para lidar com o tédio de uma maneira mais conveniente.

18 de fevereiro de 2010

ZERO DAYS OF PEACE

Os dias vão passando, e fragmentos de experiências passadas a cada ano vão se acumulado na memória como um computador inconveniente que decifra bobagens, recupera traumas e nos devolve um dicionário de lições aprendidas por caminhos tortuosos.

Agora, dentro desse labirinto de sensações visuais, auditivas e sensitivas que une passado e o futuro, tento unir as coisas que aprendi com aquilo que quero: aceitar a existência como algo positivo, partilhar paz, cultivar saúde espiritual, física e mental e encarar os problemas mundanos com toda a dignidade.

Sinceramente, não sei de onde tiro forças. Não sei até onde isso vai. A única coisa que parece cristalina e clara é onde quero chegar. E o depois do depois, só o tempo. Depois ainda, só meus cabelos brancos, chaqualhando na atmosfera numa 'carrera' atrás de um volante, correndo com meus próprios pés ou com as mãos gerando sons de diferentes tons.

A fase não é fácil. Repito: A fase não é fácil. A consciência grita e esgoela como uma sirene tardia, que avisa e remedia sem prevenir. Tempo, alta-fidelidade, disciplina, foco, atenção: todas essas coisas que me faltam devem virar pontos fortes que não sei se um dia terei, e que um dia fizeram parte de alguém empenhado e motivado naquilo que fazia.

Meus pontos fortes e fracos não significam nada perto da quantidade de pessoas que sofrem de necessidades fisiológicas. Todos precisam comer, viver, cagar e até morrer em paz.

Ah, a paz. Um dia eu chego lá.
Um dia eu consigo, nem que seja incompleta.
Mesmo que seja uma experiência oscilante.
Que a paz, ao menos, seja um objeto cortante, que divida o sucesso do fracasso.
Que devolva alguma alegria e alivie meu cansaço.

11 de fevereiro de 2010

INTERLÚDIO

E encaro novamente o vazio de não saber o que escrever, apesar do inchaço, da ressaca e do turbilhão de inconformidades, rumo a implosão.

Encaro novamente esta límpida tela, astigmatizada por meus olhos que insistem em lagrimejar, com alguns graus pra cima, pra baixo, pro cérebro, corpo, alma, todos desregulados, batendo por todos os lados das paredes irracionais que tenho quando estou fraco e cansado de lutar.

Ouço Air Supply porque o som é triste, porque as letras são idiotas e refletem exatamente meu estado de espírito. Perdido.

Não sei o que fazer da vida, não sei onde estou, e as coisas que faço são distração para a encarar uma realidade que é cada vez mais fria, áspera, material.

Estamos mudando as coisas e esquecendo das pessoas. Justiça, igualdade e vida são conceitos sem plenitude, não acessíveis, nem democráticos.

Não fazem parte de mim. Não sou eu. Não me sinto parte de nada.

Não encaro consumismo como instrumento de prazer, não encaro a felicidade como uma realidade concreta, não tenho paz.

Para prosperar, terei que me adaptar a um monte de grupos sociais interessados, egoístas, maniqueístas que querem consumir e não enxergam absolutamente nada.

Este texto é irracional. Toda luta é em vão. Sigo buscando paz. E um lugar, um canto de uma mesa, discreto, escuro, onde possa sentar e me sentir lá, agindo, pensando, tornando qualquer coisa braços e braços de bem estar comum.

[ Lágrimas ]

10 de fevereiro de 2010

ELA


Aqui e agora escuto as mesmas músicas que tenho ouvido há algum tempo, mas, curiosamente, parecem desconhecidas, como um amontoado de sons cantados e tocados. Não ecoam em lugar nenhum da alma, onde costumam repousar e encontrar abrigo em meus ouvidos. Fecho o player, ouço o vento e vejo as letras que digito na tela. A vida parece tão vazia quanto o fundo branco do bloco de notas, ou tão negra quanto a cor das palavras que o preenche.

Um ano e alguns meses se passaram. Muitas contrariedades foram superadas, muitos sorrisos e muitas palavras proferidas, claro. Houve espaço para pequenos gestos de intimidade, ajuda mútua e descontentamento também. O que quero dizer é que, durante todo o tempo que esteve comigo, ela me conquistou em pequenas frações que se tornaram imensas. Me conquistou na sinceridade do olhar, na simplicidade de seu ponto de vista sobre situações complexas ( o que é necessário ), me conquistou com sua pureza e com seus bonequinhos de olho e boca que desenhava ou encontrava por aí e achava legal, tornando-se uma de suas marcas dentro de mim que provavelmente não vou esquecer.

[Lágrimas] 

Ela me suportava nos dias de bom e mau humor, e me acompanhava onde quer que fosse, com chuva ou sol, em lugares que desconhecia, com gente que nunca tinha visto na vida, numa rotina que não imaginava parecida: assim começamos todo o nosso trajeto. Mais tarde, tudo se tornou comum também pra ela, e eu a aceitei como um pedaço de mim mesmo: sem rejeições, e com toda a importância que deve ser dada a alguém que se ama.

[Lágrimas]

Ela me ensinou o valor das coisas pequenas, de um olhar, de um objeto singelo, de simples gestos que hoje sei que fazem diferença no dia-a-dia. Talvez nem ela saiba o tamanho e a preciosidade que tem. Provavelmente o mundo ainda não se deu conta da diferença que pode fazer na vida das pessoas. Ela é inteligente, extremamente meiga e tem gestos faciais difíceis de decifrar, mas que já sei de cor e salteado.

[Lágrimas] 

E pensar que eu fui, e provavelmente ainda sou quase tudo que ela tem. É muito. Não mereço tal honraria. O mundo é assim: deixa tesouros na mão de pessoas normais, egocêntricas, egoístas, que não sabem direito o que fazer com tal preciosidade em mãos. E eu não soube. Não soube impor os caminhos adequados, não soube valorizá-la como merece, não soube dizer as coisas que ela precisava ouvir em época tão turbulenta de sua vida, de poucas respostas, muitas decisões e sobra de dúvidas. Por esse desequílibrio entre insatisfações e incertezas, decidi por mim, por ela e por nós. O futuro me dirá se minha decisão, que assumo, foi injusta, já que é tão difícil nesses casos saber o que é certo ou errado. Tudo o que sei é que nunca haverá um casal no mundo como eu e ela. Éramos uma peça única, que desfilava cumplicidade por aí, e muito amor. Éramos um. E é por isso que agora, com lágrimas correndo e caindo, me sinto multilado, sangrando e hemorrágico aqui dentro, como se tudo perdesse o sabor e a cor. Se alguma coisa ainda tem sentido, se baseia nos princípios que ela me ensinou, de paz e felicidade nas coisas pequenas.

Espero que o nosso namoro tenha sido, assim, pequeno perto de nós: um teste, uma coisa que tentamos juntos e não deu certo. Já fomos amigos, amantes e namorados na sequencia, e, recentemente, tudo isso ao mesmo tempo. Espero de verdade que isso continue, já que aqui não tem espaço para ódio, ressentimento, rancor ou nada parecido. Se o projeto que tínhamos não deu certo, podemos tentar um outro, maior ainda, vivendo uma relação honesta e sincera, de lealdade total e irrestrita, mesmo com outros caminhos que virão. Quero que isso seja maior que este universo, que todas as coisas materiais, que toda complexidade que nos torna doentes. Concordo com ela: as coisas simples e que nos deixam verdadeiramente em paz estão no coração.

[Lágrimas]

Só posso agradecê-la. Voa, menina, voa. Desculpe-me pelas feridas. Perdoa-me pela minha insensatez prática. Os erros que cometeu já estão perdoados e deles não quero mais saber. Somos maiores do que um rótulo e que toda a complexidade que as relações humanas envolvem. Mariana, eu te amo. Minha amiga, irmã, confidente, namorada e tudo o que é agora que de tão bonito ainda não criaram nome. Espero que não haja espaço para sentimentos ruins em seu coração direcionados a este cara normal que conviveu com você durante todo esse tempo. Ele é normal, que não soube lhe dar o que merece, mas vai continuar pegando no seu pé para tomar as decisões certas na vida, como obrigação mínima que tem por tudo o que lhe ensinou.

E aqui estou, sem dimensionar tempo, espaço, período ou sentimento. Estou aqui, para o que precisar, sempre.

Mariel F. Moura

28 de janeiro de 2010

ISSO É BRASIL

"O trem lotado, a moça reclamando do aperto, do desrespeito, clamando por paciência das pessoas penetrando como búfalos enlouquecidos, e execrada porque não deveria reclamar: deveria rir, achar graça da própria desgraça, e da desgraça coletiva. Esses mesmos animais que encaram o sofrimento de bom humor, que vivem de baixa renda, são também capazes de matar sem titubear quando ficam impacientes."

Vamos falar um pouco sobre o Brasil.

Um país enorme, populoso, cristão, católico, luterano e espírita, que tem sido motivo de orgulho pela representatividade no cenário internacional, pelo presidente herói-da-classe-operária e pela ascenção dos desfavorecidos.

O Brasil será sede de Olimpiada e Copa do Mundo, transformou a crise numa marolinha com impulsos massivos ao consumo popular e o povo respondeu: continuou comprando.

Temos um programa de aceleração ao crescimento, que é um alvo falso para a oposição, mas é usado como merchan e tem uma agenda robusta de obras de infra-estrutura em andamento.

Todos esses resultados e iniciativas tem a sua importância, claro, mas, ao mesmo tempo, sobra aquela sensação de que é divulgado pouco sobre o Brasil. Será que não conhecemos nada sobre o nosso país? Pois em verdade, vos digo, baseando-me apenas pela minha experiência tenra e diária:

O Brasil é aquele pobre assistente de pedreiro, desdentado, nordestino, que acorda muito cedo e corre para pegar o trem, junto com o pai, um velho de bigode vistoso e cabeça chata, para desembarcar no fim da Marginal Pinheiros e continuar construíndo obras públicas, privadas, para civis ricos que querem morar próximo ao trabalho, com fácil acesso aos shoppings da cidade, acreditando na eterna promessa do rio Tietê despoluído em alguns anos. Esses dois pedreiros são o retrato daqueles que ganham a vida com força física e habilidade artezanal, pouco cuidadosa, e que são a maioria da camada economicamente ativa do país.

O Brasil é aquele dos jovens sem estudo, desqualificados, sem recursos para investir em si mesmos, que, aos montes, são recrutados por empresas de telemarketing para continuar empurrando de tudo para a classe média: pacotes de tv por assinatura, cartões de créditos adicionais-internacionais-com-juros-abusivos, planos de previdência privada com sorteios mensais de prêmios que nunca vi ninguém ganhar: aliás, são tantas marcas, tantos prêmios, mas poucos testemunhos. Vendem também planos de telefonia celular e, pasmem, esses jovens desconhecidos nos tratam como amigos utilizando nossos dados pessoais que correm misteriosamente por aí: nome completo, telefone, operadora, CPF, banco, banda preferida. Artifícios impróprios, não?

O Brasil é o país dos intelectuais mortos, que andam impotentes por aí, sem poder coletivo, sem movimentos revolucionários, com algum dinheiro pra gastar e melhorar a própria qualidade de vida: sim, a minoria formada e esclarecida, que impulsiona as grandes decisões das diretorias e o executam trabalho operário-cerebral está morta, distante, egoísta, tecnológica, conectada, fascinada com produtos importados, culta, interligada, segmentada, massificada por meios fáceis e instantâneos, mas não se empolguem: isso é só um movimento social, não político.

O Brasil é aquele das donas de casa, empregadas, cobradores, motoboys, peões de piso de fábrica e motoristas que andam de um lado para o outro, parados no trânsito, ouvindo no rádio notícias sobre política e economia que mal entendem. Consomem, geram altos lucros, pagam juros abusivos, impostos e taxas duvidosas sem poder de barganha, pagam preços abusivos por produtos de má-qualidade, ultrapassados, parcelados em muitos meses e comem rações humanas, congeladas, deliciosas ao paladar e prejudiciais ao corpo, cancerígena à longo prazo, cheias de sacarose, corantes e gordura saturada.

O Brasil é um 'show de Truman' que vai além do próprio filme: governo-mídia-televisão-empresários-publicidade-banqueiros-igrejas, todas essas entidades, 24 horas por dia, sem descanso, bombardeando a população com argumentos de que os seus interesses são também os nossos interesses, de que vivemos constantemente num regime de ganha-ganha, de que o país finalmente é um lugar bonito, bom pra viver, onde tudo é possível de se comprar e usufruir, onde todas as transações são justas e que todos podemos viver felizes. Mais ainda: é um país onde quem reclama das coisas é um 'estressado', com 'energia negativa', que 'só fala de coisas ruins', que 'tem baixo astral', que 'precisa de Deus no coração'. que é 'chatão', que não é, enfim, 'feliz'.

O Brasil é o país das favelas, do povão, daqueles que passam fome, das organizações criminosas que dominam a segurança pública com relativa facilidade, negociando com eles, andando lado a lado, na parceria, na fé, com motoboys de duplo expediente: correria de dia, assaltos a noite, e o leite na geladeira com uma coleção de celulares roubados vendidos na Santa Ifigênia no dia seguinte. Somos o país dos morros apropriados para moradia sem custo de imigrantes de outros estados. Somos o país de programas de habitação precários, sem incentivo para os habitantes da zona rural continuarem na zona rural, sem ter que debandar para os grandes centros urbanos com uma penca de filhos de futuro duvidoso. Não temos planejamento urbano, nem saúde pública especializada: as doenças tem diagnóstico genérico, tratamentos genéricos, medicamentos genéricos e a AIDS é tratada com coquetéis porque dá mais lucro para as farmacêuticas nas licitações por um motivo simples: a cura não compensa. O Brasil é onde os consultórios especializados atendem com uma pergunta intrometida ao invés do 'Alô': 'Qual o convênio?'. Aqui, as meninas e até as senhoras usam roupa baixa, apertada, com pedaços de carne e gordura saltando para fora das vestes como se fosse normal, afinal, as menininhas da novela se vestem assim, qual o problema se eu não acho legal? O chato, de novo, sou eu. Aqui, o governo compra votos com programas de esmola nas 'capitanias hereditárias' do norte e nordeste: bolsa família, vale gás, bolsa escola, cestas básicas e etc.

Estava sentado no trem, mas queria levantar e reclamar junto com aquela moça incomodada, sofrendo os apertos dos 'animais' que iam se afunilando do trem, sufocando a todos, impacientes, 'felizes'. Mataria todos, jogaria no Rio Tietê, equilibraria a balança da distribuição populacional, me matando inclusive, se necessário. Todo esse ódio escondido, oculto pelo sistema, tíbio para qualquer manifestação feroz e modificadora, faz parte de ter que conviver sem paz com aquilo que não se pode mudar, com verdadeiros problemas distantes de verdadeiras soluções. Isso é Brasil. Obviamente, não concordo com o modo de como as coisas funcionam nesse país, mas, para os arquitetos dessa máquina que trazem a ordem da maneira que lhes convém, não tiro os méritos: tudo funciona muito bem.