26 de março de 2012

HENNINGSDORF

"Me sinto vencido, ficamos cansados e comemos pouco. Recuamos e fiquei muito mal, mas sobrevivi. Na semana passada, perdi a perna direita e dois dedos da mão, estou num ambulatório em Henningsdorf. Tomo doses diárias de morfina e sinto-me relaxado demais para pensar. Lembro da videira que temos no quintal, do seu rosto. Agora uso muleta e demoro para ir ao banheiro. Espero que esta carta chegue ao destino e que vocês estejam saudáveis. Finalmente a fumaça se foi e posso sentir o cheiro de trigo. Agora me alimento bem, mas temo que não dure muito tempo. O exército inglês é perseverante e chegará nos próximos dias, estamos preocupados. Espero ver a nossa pequena tocando piano novamente. Estou desanimado, mas não tenho o que fazer (a não ser animar os outros enfermos). Continuarei lutando se for necessário. Saudades."

25 de março de 2012

QUASE DE MANHÃ


é pau, é pedra, é o fim do caminho
é o medo da noite, é o ponto vazio
é falar com amigos, é jogar futebol
é a ansiedade para abrir o farol

é a viola no canto, a comida azeda
vasilha, marmita, é roubar a carteira
é a coberta no inverno, é descer a saideira
é o trocado, é o leite, é encher mamadeira

é a criança chorando, é dormir na cadeira

é o resto de pão, é o gato na telha
é a pá de cimento, é a cruz na gaveta
das águas de março, é sair da cadeia

é o céu, é o patrão, é o grão na peneira
é a educação, é pote na prateleira
é a fome, é o mel, é o aperto de mão
é o menino, é o trabalho lá na construção

é o servidor público, é a blusa de linho
é o perfume no rosto, bem cercado de amigos
é o térreo, é o elevador, é a caneta de ouro
é o jardim da casa, é a grama no entorno

é o cheque, é o metro, é o piso brilhando
é a limpeza da sala, é o chefe chegando
é a volta, é o toco da mulher amada
é o orgulho ferido, é a moral derrubada

é a mistura da massa, é armar a cabana
é o cansaço, é o abraço, é o jogo, é a cana
é o estrago, é a dor, é o beijo na mãe
é a calçada estreita, é a blusa de lã

são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

abre a porta, é o tal, vem joão, vem josé
assinem ali, no x do rodapé

são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

15 de março de 2012

REICHSWEHR


nas estacas cravadas, na arena de barro, declínio de barricadas em solo quente \ contrato sem cláusula, pacto de sangue, irmãos de armas usam suas mãos pertinentes \ enterram matéria da mesma espécie, afogam as fardas em sangue e pranto \ retiram as cápsulas alojadas, reúnem os artefatos, separam as cartas de seus conterrâneos

os muros tornam-se apoio de pé, cravejado de orgulho, poder irrestrito, trono uníssono de ordem absoluta \ casas, porta retrato, ruínas carbonizadas, civis e braços erguidos em ajuda \ tropas cruzam os restos de tudo, preto no branco, olho por olho em seu centro visceral \ a força em domínio, a expansão das terras, o objetivo estimado, o crescimento exponencial

minha casa é meu território, o poder é meu amigo, o mundo rende-se em sua pequenez \ venho por meio desta pedir sua rendição, acordar a capitulação em meu jogo de xadrez \ a justiça corre ao meu lado, meus conceitos são válidos, o caminho é coerente, a raça é forte \ a verdade percorre em tanques escuros rumo à luz, luto pela pátria-mãe até a morte

crescemos em meio ao contingente, brincamos protegidos marchando rumo ao castigo \ toda guerra tem um motivo relativizado, fizemos do custo um preço ofensivo \ a operação abasteceu métricas que variam entre o pouco, o muito e o normal \ por todo canto existem humanos competitivos em sua natureza incondicional

a batalha avança, fecha os cercos em forma de calotes e bolsas em queda \ os suprimentos das divisões alertam os empresários com uma luz amarela \ o mérito da inteligência produz frutos de espionagem industrial e guerra cambial \ para o privilégio da vantagem ante a troca, o sistema imperfeito é o modelo ideal

12 de março de 2012

EM CASO DE LOUCURA, NÃO PERTURBE


// não fume, venha acompanhado, compre seu ingresso, recarregue seu bilhete, mantenha distância, trabalhe em casa, facilite o embarque, chegue em segurança, beba com moderação, fique à vontade, seja nosso cliente, corra, empurre, não perca, reabasteça seu carro, vá de metrô, aprenda em cinco dias, pense no futuro, viva o presente, diminua a quantidade, intensifique o treino, leia mais, reduza a velocidade, emagreça fácil, coma de tudo, parcele suas compras, fuja do limite, pague em dia, clique aqui, atualize a versão, veja as ofertas, abra sua empresa, aproveite, oportunidade única, gerencie projetos, crie estilos, desenvolva suas qualidades, ouça o novo disco, experimente hoje, busque, assine já, compare preços, afilie-se ao partido, anuncie na web, hospede seu site, saiba como fazer, neutralize o stress, instale corretamente e seja você mesmo //

7 de março de 2012

MEU CORAÇÃO É NOVO


Tinha um despertador de pilha, daqueles que fazem tu tu tu, seco e irritante. Acordava às 4h da manhã e fazia dois turnos na limpeza. Era casado, era feliz, era pai de dois filhos e chegar em casa era tudo o que queria, todo dia, para viver o calor daquilo. 

Pegava o Terminal Princesa Isabel, às 5h, já lotado, mas acostumou. Pensava silenciosamente, lembrava afetivamente e trabalhava mecânicamente, recolhendo os resíduos de nossa comodidade escrota.

Entre baias, corredores e lâmpadas frias, um obrigado. Um sinal de gentileza, uma palavra cortante em seus nervos, fazendo-o parar e sorrir, quase sem acreditar que alguém percebeu a sua presença e agradeceu.

Nenhum esforço, uma palavra, um segundo, um sorriso e a vida faz sentido.

24 de fevereiro de 2012

AMOR


às vezes, precisamos de uma firme sensação de isolamento, sem que ninguém contraste com nossos universos já tão complexos e difíceis de lidar. às vezes, nos entregamos a simplicidade de construir pontes ao invés de paredes, abandonamos nossas convicções fiéis e nos abrimos a abismos de pessoas que mal conhecemos. às vezes sondamos pessoas como um ato pouco nobre de estabelecer critérios e preenchê-los, numa checagem mutável, imatura, instintiva e, muitas vezes, continuamos sozinhos abraçando a causa do auto controle, nos transformando em seres densos dentro de buracos fundos protegidos pela própria satisfação.

a intersecção entre uma ou mais pessoas é um grande projeto de engenharia, onde as partes vão se encaixando, os lastros vão se ajustando, flexíveis, para que toda a estrutura continue forte em instantes tempestuosos. a natureza divide, multiplica e o homem (grande em valor) deve unir, apesar de tudo, em primeira instância, seus próprios pedaços para identificar no outro verdadeiras partes de si. do resto, o amor cuida, sem medo de dar certo.

14 de fevereiro de 2012

KEEP YOUR SOUL CLEAN


Chegava todo dia depois das 19h00, quando o escritório já estava vazio. Recolhia os restos de todo mundo e pegou amizade comigo, não sei porque. Limpava o banheiro, tragava diariamente dos nossos piores odores, falava difícil, meio atrasado, meio gaguejando, mas sabia falar.

Andava pelos corredores como um invisível, suspirando a indiferença das mesas e cadeiras. Virou meu amigo porque torcemos para o mesmo time, e isso nos aproximou.

Hoje, me trouxe um jornal, velho, amarelado, dobrado no bolso como uma preciosidade, para me mostrar uma foto dele no jornal com a camisa desse time que nos uniu. Do lado da foto, uma matéria bem mal escrita. Coisa humilde, mesmo. O jornal era de 1999.

Um sorriso, "amanhã tem jogo, hein?", um cumprimento entusiasmado com as mãos sujas que nunca consegui evitar, mesmo que sujasse as minhas. Não é a primeira vez que acontece. Depois de tantos desvios, eis uma época em que a humildade impera sublime, tracejando em silêncio a linha tênue entre a inteligência e a babaquisse.

24 de janeiro de 2012

WHITE LIGHT, WHITE HEAT


13:06 // a ansiedade e os fatos são como uma persiana descompassada que oculta o sol só pela metade. as peças espalham-se sobre a mesa numa bagunça auto induzida. queremos botar fogo, aniquilar tudo o que fomos e, através do calor, manter apenas o que é íntegro em suas propriedades. os gases da atmosfera misturam-se, longe, como o tempo que passa sem motivo aparente e nos faz questionar continuamente. pele, corpo, direção e alívio. senso de propriedade aliado a responsabilidade. de onde tiramos força para evocar as estrelas do céu? de onde vem a maré que nos empurra quando precisamos? auto engano, caixola cheia, pseudo vontades convertidas em um novo quadro concreto. a razão deve vencer, mesmo sem atalhos // 13:16

22 de janeiro de 2012

GREENWICH VILLAGE


Dois copos vazios, o vento do ventilador esbarrando nas cápsulas da mesa, um mini império de madeira escura, o céu nublado e uma procissão de indecisões ajoelhadas, em silêncio, cercando as necessidades físicas. O violão não é uma máquina de matar fascistas, minha casa não é habitat natural de escorpiões em ponto de acasalar. Ando de óculos escuros na escuridão imaginando poupar meus olhos da luz no túnel que não estou acostumado a ver. Sobra-me a convicção de uma aranha que deseja resguardar seus ovos vislumbrando o futuro de sua aracnídea espécie, falta-me o sentido da reprodução. A segurança excessiva dos recursos não dá vazão verdadeira ao trabalho, sobra o tédio. A única fé remanescente é aquela de achar um norte entre tantos sudestes cinzas e poder competir, mesmo não sendo um puro sangue.

20 de janeiro de 2012

IT NEVER ENTERED MY MIND



olha para tela e vê um emaranhado de textos desconexos // como é difícil estruturar as idéias (por melhor) (por pior) que sejam. é difícil tornar didático, fazer com que entendam, discordem ou concordem com propostas solitárias para o coletivo // se tivéssemos aspirações pobres seria fácil consolidar, mas nossas ambições são grandes // com algum privilégio mental, poderíamos assimilar muita informação, transformar em conhecimento e saber o que fazer ~sempre~ // nossas escolhas envolvem recursos, pessoas, timing. é difícil orquestrar tudo isso (capacidade de ver a consequência dos atos a longo prazo). o ser ilimitado que queremos ser é, na verdade, uma versão limitada que precisa recalcular sua rota (como um marca passo) (como um gps) // fugas eletrônicas, ligações elétricas e pouco calor // (não vou falar de amor, todo mundo fala. até uma revista ~relativamente moderninha~ como a vida simples trata isso com uma uma matéria de colegial) // ter maturidade para admitir começo meio e fim, livrar de rótulos, equalizar cumplicidade e afeição // precisamos de foco // eis uma balança que precisamos equilibrar: 1. reconhecer nossa pequenez unitária entre 7 bilhões 2. enxergar a beleza de viver em comunidade da mesma espécie com civilidade 3. ao passo que todo mundo quer ter senso de exclusividade 4. com a lamentável realidade de pessoas sofrendo // precisamos de fugas para equilibrar essas balanças, mas não fazer nada além é deixar que nossas fraquesas dominem nossas ações a ponto de travar nossas ambições // as coisas tem energia. onde queremos chegar com o que temos em mãos? // o que há além da cultura pop (livros, filmes, música)? onde isso nos leva? expande? prende? mantém num ponto de estagnação confortável? // o tempo passa, frequentamos lugares, as escolhas melhoram (se aproximam mais do que somos de verdade), o círculo social fica ok, espelhamos as gírias, idéias e expressões acolá. como queremos ser influenciados? (outra pergunta sem resposta) // nossas circustâncias nos levaram a ser o que somos // um paradoxo moderno: é necessário contato contínuo com tantas pessoas? // somos limitados, nossa mente não alcança certas idéias, reconheço. // do alto de idéias mesquinhas me esfarelo em palavras // esomeprazol, ranitidina, azitromicina, omeprazol, amoxilina e viverei o suficiente